Título original: “Moby Dick”. Ano: 1956. Direção: John Huston. Roteiro: Ray Bradbury, John Huston, Herman Melville (livro “Moby-Dick”). Elenco: Gregory Peck, Richard Basehart, Leo Genn, Flask Friedrich von Ledebur, Harry Andrews, James Robertson Justice, Francis De Wolff, Tom Clegg, Edric Connor, Bernard Miles, Royal Dano, Orson Welles, Noel Purcell, Mervyn Johns, Joseph Tomelty, Philip Stainton, Seamus Kelly, Tamba Allen. País: EUA. Produção: Moulin Productions Inc., John Huston. Fotografia: Oswald Morris. Música: Philip Sainton.
Sinopse: O aventureiro Ishmael (Basehart) narra sua incrível experiência no baleeiro Pequod. Tendo se juntado à tripulação no porto de New Bedford, Massachusetts, em 1841, ele assiste à missão do grupo de caça comercial ser abruptamente suplantada pela vingança pessoal do Capitão Ahab (Peck), obcecado por matar a enorme baleia branca que o fez perder a perna.
O escritor Herman Melville, o diretor John Huston e o Capitão Ahab confundem-se nesta transposição incrivelmente à altura de seu texto original, refletindo na tela as cores, texturas, atmosfera e gravidade da maior aventura marítima da literatura. Um elenco orgânico e afinado, com direito a assombrosa participação de Orson Welles, encontra seu coração na diversa tripulação, com figuras inusitadas e extraordinárias como o encantador canibal Queequeg (Ledebur). Transcendendo a diversão sem nunca deixar de proporcioná-la, a obra reflete o drama humano da luta contra os próprios limites. Nesse sentido, a década de 1840 surge na tela como primórdio de contemporaneidade: caçadores de baleia cantam suas canções folclóricas, longe, é verdade, das então pulsantes fábricas, mas já imbuídos da missão de fornecer o óleo que iluminará as crescentes cidades. O objetivo de Ahab, ou melhor, sua obsessão, é outra, aparentemente muito mais perigosa: matar o “monstro” que o aleijou e, ao fazê-lo, vindicar-se não do mero animal, mas do destino humano de limitação e sofrimento; afrontar, enfim, a divindade que traçou esse destino. “O filme, como o livro, é blasfemo”, vaticinou Huston, afirmando que Deus (e não seu assistente de direção, como pensara inicialmente) conspirou contra a produção, causando seus inúmeros contratempos. Seja como for, a obra foi muito bem concluída e, hoje, longe de blasfêmia, soa como alerta, tal qual o do profeta portuário (Dano) no início da fita. Uma parábola como a de Jonas ou a de Adão, citadas diretamente na narrativa, ou a de Prometeu, citada indireta e lindamente, que nos lembra dos perigos de querer ser maior do que si mesmo. Ora, essa é a vertiginosa jornada do homem pós-Revolução Industrial, em sua obsessão por controlar a natureza, subjugá-la e, de modo cada vez mais inegavelmente irracional, destruí-la. A gritante devastação da criação é um desafio ao Criador muito mais insolente do que o de Jonas ou do nosso amargo capitão. Assim, a fúria de Moby Dick na sequência final expressa nestes dias de ainda mais atemorizante justiça poética. E, Deus nos ajude, o que poderá evitar de sermos todos (ou quase todos) tragados por tal catástrofe a que nos dirigimos impotente, ou talvez voluntariamente?
116 min.